Distribuições nacionais estão "morrendo" – e Kurumin ainda é a mais popular

Atenção: se você não está a fim de ler o artigo todo, clique aqui para ir direto à análise.

A maioria dos usuários experientes de Linux critica a atual pluralidade de distros existentes. Se, no final da década de 90, tínhamos apenas algumas poucas distros, a maioria “puras”, hoje temos uma quase infinidade delas. No Brasil, a maior parte das distribuições são derivadas do Debian, do Ubuntu ou do Kurumin e, geralmente, são completamente desnecessárias, oferecendo essencialmente o mesmo que as grandes distros, com o único diferencial de ter um papel de parede exclusivo e de gosto duvidoso ou um painel de controle feito em Kommander/Shell script com vários erros de programação.

Somando-se a isso o fato de que a maioria das distros nacionais mais conhecidas são feitas por usuários domésticos, tem-se um suporte técnico e uma política de atualizações de segurança altamente deficientes: quanto ao primeiro, na maioria das vezes, é oferecido em um fórum no site da própria distro e as dúvidas são respondidas pelos próprios usuários – e não por um profissional com conhecimento técnico adequado; quanto ao segundo, os desenvolvedores das distros simplesmente deixam a tarefa de atualizar o sistema para a distro-mãe (Debian ou Ubuntu, por exemplo), sem se preocuparem se uma atualização da distro original poderá quebrar a compatibilidade ou alguma configuração feita na distribuição – alguns usuários, inclusive, reclamam de que o termo correto não seria distribuição, pois as distros nacionais não são criadas do zero: eles dizem que o mais adequado seria dizer personalização.

Como se isso não bastasse, não é de se espantar que a maioria das distros nacionais não cumpre corretamente os termos da GPL. Em um post do BR-Linux de Abril deste ano, foi denunciado que a popular distribuição Big Linux viola a GPL ao não disponibilizar o código-fonte dos pacotes que a constituem, o que causou uma grande polêmica e a promessa dos mantenedores da tomada de providências para solucionar a questão. Além disso, muitas distros nacionais incluem programas e drivers proprietários – como drivers de softmodens e o plugin Flash -, o que mostra que seus mantenedores não se preocupam com a causa do software livre.

O blog Informando é a primeira referência quando se pesquisa por “lista de distribuições nacionais”, listando 25 distros feitas em nosso país. A boa notícia para os usuários avançados é que as distros nacionais estão morrendo. A mais popular distro nacional, a Kurumin, foi oficialmente descontinuada no final de 2008, depois de o mantenedor do Kalango fundir sua distro com a criação de Morimoto, o que não foi bem aceito e terminou com o fim do Kalango, também. Junto a eles, os sites de outras distribuições, como Tupiserver – uma distro para servidores baseada no Kurumin – e Tutoo – uma distro baseada no Gentoo que serviu de base para o Librix da Itautec -, assim como o do Muriqui Linux, não estão mais online. As distros Dizinha e Neodizinha, destinadas a PCs antigos e com poucos recursos, também foram descontinuadas em 2008 e em 2009, respectivamente e a última versão disponível para download do Gobolinux – que redefine a estrutura de diretórios – foi lançada em 2008.

Além disso, outro fator que corrobora esta tese é o atraso no lançamento de novas versões. O Big Linux 5 já está a tempos para sair e não sai. A última versão estável do DreamLinux, a 3.5, foi lançada em 28/02/2009 e, em Junho, a equipe lançou o SEXTO beta da versão 4, segundo o Distrowatch. A distribuição científica Poseidon é um mistério: na página de changelog, é dito que a versão atual é a 3.1, “aseado no Ubuntu 8.04.1 e com updates de segurança até 17-10-2008”, mas na página inicial é dito que foi lançada a versão 3.2, baseada no Ubuntu 9.10, mas não há data de lançamento, nem no site nem nos mirrors – aliás, o mirror da UFPel está fora do ar e o mirror francês exige um usuário e senha (?!).

No time das menos piores estão a distribuição Ekaaty, que lançou sua última versão estável em Abril, mas reagendou o update 2 da distro para o dia 21 deste mês e cancelou a variante MediaBox. A distribuição GoblinX também foi descontinuada em Junho – pois mudou seu nome para Imagineos e, logo, continua na ativa. Aparentemente, a Imagineos – seguindo o exemplo do DreamLinux – abandonou o mercado nacional e está focada em falantes de língua inglesa. Já o BRDesktop lança suas atualizações junto ao Debian e, portanto, está ativo para todos os fins.

O que podemos notar, no entanto, é que as distros mantidas por empresas, como Fenix, Satux ou Librix, continuam seu desenvolvimento a todo vapor. Isto deve significar que a cena Linux brasileira está amadurecendo: as distribuições estão deixando de ser criadas por usuários domésticos amadores e passando a ser desenvolvidas por empresas que, ao contrário dos primeiros, têm um compromisso com a obtenção de lucro e satisfação do cliente.

É claro que essa “pesquisa” sequer considerou aquelas pequenas distros com finalidades específicas ou com propostas mirabolantes que serão esquecidas logo após sua primeira versão. Logo, se você quer criar sua própria distro, é bom pensar duas vezes: primeiro: desenvolver e manter um sistema operacional dá trabalho, segundo: cumprir corretamente a GPL não é fácil e, terceiro, os usuários de software livre NÃO QUEREM e NÃO PRECISAM de uma nova distribuição, é mais fácil ajudar uma distro já existente para torná-la, assim, mais forte e melhor.

E quem é a distro mais popular?

Agora, motivado por um artigo do BR-Linux o qual mostra que a palavra Ubuntu é, atualmente, mais popular que a palavra Linux, eu resolvi descobrir qual é a distro mais popular. Assim, baseado na lista do Informando, eu utilizei o Google Trends para medir a popularidade das principais distros do país: ou aquelas que mais vêm à mente, embora descontinuadas. Para tal, eu inseri no campo de pesquisa da página a expressão “DreamLinux, Kurumin, GoblinX, Librix, Gobolinux, Resulinux, Ekaaty, Satux, Fenix linux, Famelix”, sem as aspas. Como, no entanto, o sistema só aceita 5 termos de cada vez, a pesquisa foi dividida em duas: primeiro, pesquisou-se pelas distros feitas por usuários, ou seja, “DreamLinux, Ekaaty, Kurumin, GoblinX, Gobolinux” e, depois, pelas feitas por empresas: “Librix, Resulinux, Satux, Fenix linux, Famelix”.

No primeiro caso, verifica-se que, com a opção “All regions” selecionada, a distribuição Kurumin esteve em uma curva de crescimento entre 2004 e 2005, mantendo-se estável em 2006, e entrando em queda livre de 2007 a 2009, recuperando-se em 2010 e continuando a crescer, apesar de estar descontinuado. Apenas a distribuição DreamLinux conseguiu superar a Kurumin duas vezes: na metade de 2006 e no começo de 2009, tendo quase conseguido em 2008. Desde então, o DreamLinux está caindo cada vez mais. As outras distros mal apareceram na pesquisa e, com a opção Brazil ativa, a Kurumin é a única distro a aparecer no gráfico.

Quanto aos Linuces empresariais ou do programa computador para todos, o Famelix teve mais notoriedade de 2006 a 2008 e atingiu seu ápice no segundo quadrimestre do ano retrasado. Atualmente, a distro mais popular é o Satux, que geralmente vem com os micros da CCE. Com a opção “Brazil”, o resultado é o mesmo, embora o Librix tenha ultrapassado o Satux no final de 2009.

Comparando-se os dois vencedores, o Librix e o Kurumin, vemos que a distribuição do Morimoto ganha de lavada do Librix e também do Satux tanto globalmente quanto no Brasil. No entanto, quando confrontamos o Kurumin e o Ubuntu, temos dois cenários distintos: em “All regions”, como era de se esperar, a href=”http://www.google.com/trends?q=Kurumin%2C+Ubuntu&ctab=0&geo=all&geor=all&date=all&sort=0″ target=”_blank”>a Kurumin quase não aparece mas, quando mudamos para os resultados do Brasil, temos um fenômeno interessante, onde vemos que o Ubuntu começou a crescer no final do primeiro quadrimestre de 2005, alcançou o Kurumin na virada de 2006 e continua crescendo.

Por um lado, é de se espantar que uma distro cuja última versão tenha sido lançada em 2007 continue sendo a mais popular do país; por outro, isso deve ser pelo fato de ela ter sido a primeira distro nacional a ser realmente fácil de se usar e a responsável por abrir a porta de entrada do mundo GNU/Linux para muitas pessoas – inclusive aquelas que as criticam. Não é de se espantar que, em terra de tupiniquim, Kurumin é rei.

ATUALIZAÇÃO: A anta aqui esqueceu de inserir o Big Linux na pesquisa (eu juro que não foi proposital, desculpem). Esta distro está em um patamar relativamente constante, conforme pode ser visto aqui e aqui.

Anúncios
Esse post foi publicado em Distribuições, Linux e marcado , , . Guardar link permanente.

26 respostas para Distribuições nacionais estão "morrendo" – e Kurumin ainda é a mais popular

  1. Pingback: Tweets that mention Distribuições nacionais estão “morrendo” – e Kurumin ainda é a mais popular | keepgeek -- Topsy.com

  2. Aureliano Martins disse:

    Pelo Amor de Deus!!!!!! Kurumin é pra trouxa!!!!!!!!!

  3. Gilson disse:

    De fato, hoje não existe uma distribuição nacional que chama a atenção dos usuários. Ainda mais com o crescimento do ubuntu, onde parece que o foco da canonical é diretamente com os problemas que temos aqui no Brasil.

  4. Sri_Dhryko disse:

    Senti falta na pesquisa do Big Linux.

  5. Já corrigi, mas cadê o meu comentário sobre isso??

  6. Aston Martin disse:

    Como gostam de falar mal do Kurumin. Queria ver se essas pessoas tem capacidade e competência de fazer algo melhor.
    Falar é fácil, difícil é fazer!!
    Parabéns ao Morimoto por ter introduzido o espírito livre nos brasileiros através do Kurumin.
    Big Linux é uma ótima distro tb. Espero que continue evoluindo.

  7. Marcelo Faria disse:

    Primeiro quero elogiar o artigo: muito bom! Segundo; o que foi postado, na minha opinião, corresponde sim a realidade. Sou usuário Ubuntu e Livre S.O., mas conheci o mundo Linux através do Dreamlinux. O Kurumim ajudou muita gente sim e a primeira impressão é a que fica. Parabéns ao Morimoto pelo que fez e até humildemente fica a sugestão para retomar o projeto. O Dreamlinux, Big Linux, Metamorphose, Resulinux, na minha opinião, tem boa vontade, mas estão meio perdidos. Deveriam seguir seus caminhos, criar seu público fiel e conquistar novos fãs. Para ter uma distro parecida com o Ubuntu, eu fico com o mesmo. Distro brasileira…vejo o falecido Kurumim e o Librix, mas com ressalvas. Chegou a hora da comunidade Linux amadurecer e REALMENTE correr atrás de um projeto nacional. Abraços à todos!!

    • Cristiano C. Maia disse:

      Fala muita bobagem, digno de um troll … projetos como DreamLinux, Big Linux possuem mais de 02 milhões de downloads efetuados e milhares de usuarios cativos…

      • Marcelo Faria disse:

        Estes projetos devem ter mais de 3 milhões de downloads, eu mesmo já baixei mas de cem cópias do Dreamlinux para distribuir a curiosos do Linux. E poucos continuam com ele….Falta de atualização? Algo mais claro? Você sabe quando vem a próxima versão? Eu troll? Rapaz, eu fiz camisas com o logo do ubuntu e mandriva para distribuir e fazer propaganda. Ninguém me deu nada. Acho que tenho condições de comentar….

      • "Estes projetos devem ter mais de 3 milhões de downloads, eu mesmo já baixei mas de cem cópias do Dreamlinux para distribuir a curiosos do Linux. "

        Você não acha que seria muito mais simples e rápido baixar apenas uma cópia e gravar vários cds com ela, ao invés de baixar uma cópia pra cada um?

      • Marcelo Faria disse:

        No meu PC eu tenho os espelhos e daí faço várias cópias para distribuição tipo: Ubuntu, Mandriva, Livre S.O.. Quando eu digo mais de 100 downloads é porque fiz diretamente dos PCs dos interessados a experimentar o Dreamlinux por exemplo. Eu acho que falta aquela propaganda, vou conversando e estimulo a curiosidade e aproveito a "deixa" do PC próximo…

      • Ah bom. Realmente, uma boa estratégia.

  8. Como mantenedor do Ekaaty gostaria de clarificar a parte que cita a nossa distribuição. O autor cita como negativo o fato do reagendamento do update 2 da versão atual, yanomami, e a extinção da variante MediaBox. Na verdade a variante não foi excluída, apenas foi englobada pelo DVD de instalação, tornando-se um perfil de instalação. O update 2 foi reagendado devido à problemas com a nossa infraestrutura de desenvolvimento – problemas que ainda temos mas tentamos contornar com muita raça e amor pelo desenvolvimento em S.L.

    • Ah, muito bom saber. Minha intenção não foi ofender de forma alguma, mas você há de convir que o reagendamento, embora não seja um ponto negativo, também não é um dos mais positivos. De qualquer forma, eu considero que sua distro, como diz o próprio artigo, está bem e eu sinceramente desejo sucesso e uma vida longa a ela.

      []'s

  9. RWagner disse:

    Boa noite a todos,

    Algum dos srs já ouviu falar do Epidemic?? é uma proposta bem séria e não fica nada a dever ao todo poderoso Ubuntu, quem funfa com linux deveria testar mais distros nacionais, e deixar o Kuruma "defunto" em paz.
    Eu também sou viúvo dele , mas toquei minha vida prá frente, não parei prá chorar por que o linux é maior do que qq distro, seja ela Nacional ou não.

    Segue o short cut da proposta Epidemic http://www.epidemiclinux.org/

    • Marcelo Faria disse:

      Rapaz testei todas as distros nacionais, tanto em máquinas virtuais como no meu PC. Eu não citei o Epidemic no meu comentário por gostar dele. Só que por exemplo, na minha opinião é um projeto muito parecido com o do metamorphose. Tem suas qualidades, é mais amigável que outras distribuições e…. talvez a proposta seja algo novo mesmo! Um projeto ousado, brasileiro, inovador.

  10. Stephen Lemos disse:

    Vc esqueceu de mencionar o (falecido) Conectiva, que foi, se não me engano, a primeira Distro nacional a fazer uma abordagem empresarial. E com relativo sucesso1

  11. Você esqueceu de mencionar o KDuXP ( http://www.linuxkduxp.com/ ), que é muito popular entre os usuários iniciantes vindos do Windows e que a usam como sua primeira distribuição GNU/Linux!

    É mantida pelo dono da empresa Index Data ( http://www.indexdata.com.br/ ), possui suporte tanto gratuito (através de fórum e chat) quanto pago (que está incluso na instalação do Sistema feita por tal empresa), embora você possa baixá-la gratuitamente se quiser!

    Está ativa a aproximadamente 1 ano, mas que, desde que o contador de downloads foi instalado no site (a uns 3 meses), já teve aproximadamente 1980 downloads (somados os downloads de todas as versões). Acho que no total (desde antes do contador de downloads ser instalado) deve ter tido aproximadamente uns 5 mil downloads!

    Obs.: Isso pode ser visto aqui: http://www.linuxkduxp.com/downloads/ (deixar o mouse em cima de cada link para ver o número de cliques)! 😀

    P.S.: E como disse o "Stephen Lemos" acima, você também esqueceu do Conectiva! 😛

    Abraço,
    Igor Isaias Banlian

  12. Gonzalo disse:

    Algumas distros nacionais tem apenas um "look" diferente. Outras tem propostas específicas.
    Acabo de ver que o Poseidon 3.2 está atualizado no site (inclusive o changelog e um link para download).

  13. Fred Ross disse:

    Por que brasileiro tem esse costume de cachorro abandonado em dizer ‘distros nacionais estão morrendo” e citam remasterizações do Knoppix e do Kubuntu como exemplo de coisas nacionais? Temos que parar com isso, o Linux já é internacionalizado, há desenvolvedores de software para ele, até brasileiros responsáveis pelo kernel… parem com essas tonteiras!

    Distribuição Nacional era a Conectiva, que cumpria a GPL, e chegou até a registrar o nome Linux no Brasil e doar para Linus Torvalds… ISSO foi uma distribuição nacional. O resto são só remasters.

    E remasters só confundem mais a cabeça de um iniciante, pois veja o caso desse biglinux: adiciona big no começo dos comandos, como bigsudo… isso é perda de tempo e só gera confusões…

  14. Imagineos não deixou o mercado nacional tem inclusive ISO em pt-BR, continuo na ativa, só mudou de nome e se adaptou ao mercado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s