Por que (alguns) usuários de Linux são tão elitistas?

Eu uso Linux simplesmente porque esse sistema operacional atende a todas as minhas necessidades, no entanto, há pessoas as quais pensam que o Linux é o único e melhor sistema operacional que existe e acabam por desprezar – muitas vezes sem razões plausíveis – todos os outros sistemas existentes, notoriamente o Windows. Além disso, muitos usuários de Linux impõem um padrão comportamental e cultural a eles mesmos e aos novos usuários que estão descobrindo o sistema e buscam sua ajuda. As razões para este comportamento podem ser encontradas no fato de os usuários de Linux serem uma minoria social no cenário de computação global e por quererem diferenciar-se da massa, que usa Windows.

Por mais que algumas pessoas ignorem ou não se importem com esse fato, a verdade tem que ser dita: os computadores com Linux representam cerca de 1% de todas as máquinas desktop existentes no planeta Terra: nosso mundo é movido a Windows. Assim, a maioria das empresas de software e hardware desenvolve suas soluções voltadas a esse sistema: são poucas as companhias que disponibilizam drivers e versões nativas de seus softwares para o ambiente livre. Por serem uma minoria – e serem, de certa forma, discriminados por essas empresas -, os usuários de Linux comportam-se como outras minorias sociais que também são discriminadas em nossa sociedade como, por exemplo, os negros e os homossexuais. Todos nós sabemos que, por mais que digamos que o Brasil é um país livre de preconceitos, o preconceito existe em nossa nação de forma camuflada – como dizia Tim Maia. É o clássico exemplo de quem diz ser tolerante aos homossexuais mas solta, de vez em quando, frases como “que viadagem!”, ou quem diz não ser racista mas fala um “isso é coisa de negão”. Esse comportamento, porém, é natural do ser humano: temos tendência a hostilizar tudo que não conhecemos ou podemos compreender.

Com nosso preconceito camuflado, negros e homossexuais vivem em um estado de permanente tensão: do lado dos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, por mais que eles busquem seus direitos e estejam cada vez mais na mídia, sempre haverá religiões baseadas no Cristianismo – principalmente as de caráter pentecostal – que dirão que o que eles estão fazendo é algo sujo e pecaminoso e que, caso não se convertam, serão condenados a serem jogados em um caldeirão de fogo e enxofre pelo amável Deus que deu Seu único Filho para nos salvar. Na verdade, as religiões que aceitam homossexuais querem, no fundo, sua mudança de comportamento. Já do lado dos negros, temos a herança deixada pela Igreja Católica que, durante o período colonial, justificou a escravidão do africano afirmando que os negros não tinham alma e que, portanto, eram seres inferiores que podiam ser escravizados. Mesmo com a abolição da escravatura, o preconceito contra essa etnia permaneceu incrustado em nossa população, a qual negou-lhes a possibilidade de ascensão social, forçando a maioria a ir morar em morros e a ter subempregos.

Com toda essa pressão, é natural que os negros e homossexuais – assim como outras minorias de nossa sociedade – queiram se proteger e, para fazer isso, eles discriminam seu opressor – o elemento branco ou o elemento hétero. Em reuniões de movimentos negros e gays, por exemplo, geralmente não é permitida a entrada de brancos e heterossexuais, respectivamente. Essa discriminação praticada por eles é uma forma de eles afirmarem sua cultura e se protegerem de quem os oprime.

A mesma analogia pode ser aplicada aos usuários de GNU/Linux: a maioria das grandes empresas de software e hardware simplesmente ignora a existência do sistema; fabricantes de computador não oferecem máquinas com o sistema livre e, quando oferecem, colocam uma distribuição mediocre e cds com drivers para Windows. Logo, é natural que os usuários de Linux unam-se em torno de si e passem a discriminar seu elemento opressor, muitas vezes usando argumentos tecnicamente corretos e convincentes e muitas vezes valendo-se de opiniões pessoais ou falácias lógicas. Vejam, por exemplo, essa tirinha do Nerdson:

O balão do último quadrinho, “Sites em Flash e livros de auto-ajuda, qual a diferença?”, exprime a opinião do autor sobre sites criados com a ferramenta Flash da Adobe. Mas por que ele tem essa opinião? Debalde todos os motivos técnicos, a principal razão é a de que Flash ainda é um formato/aplicativo proprietário, o que vai de encontro aos ideais do software livre. Como notável usuário de softwares livres, o autor de Nerdson deve preferir criar seus sites usando recursos livres e nativos, como HTML, CSS e JavaScript mas, como foi escrito nos próprios comentários da tirinha, “Só critica Flash quem não conhece a ferramenta”. Ou seja, a opinião de que sites em Flash são ruins é, estritamente, dele e das pessoas que corroboram com sua opinião: se mostrássemos essa tirinha em um fórum ou comunidade de desenvolvedores Flash, eles citariam milhares de argumentos para derrubá-la em poucos minutos pois, goste o autor ou não, ainda há um imenso mercado de sites feitos em Flash em nosso mundo. Atacar a tecnologia proprietária, como neste exemplo, é uma tentativa de a pessoa se auto-afirmar perante si mesma e perante o grupo social ao qual ela pretende estar inserida: cairia mal um usuário de software livre defender a criação de sites em Flash.

Por quererem encontrar seu lugar no mundo, os usuários de Linux buscam diferenciarem-se, comportamentalmente, das demais pessoas ao seu redor, que usam Windows. Isso obriga-os a sustentar um esteriótipo de intelectuais e a criarem seus próprios valores éticos que, muitas vezes, não são seguidos. Podemos citar como exemplos: a maioria das pessoas usa Windows e a maioria das pessoas assiste televisão, logo, eu devo considerar a televisão algo maligno e não posso assistí-la – ou seja, o cara esbanja para todo mundo que não assiste televisão, mas geralmente baixa filmes e séries da Internet; a maioria das pessoas usa Windows e a maioria das pessoas possui uma religião, logo, a maioria dos grandes usuários de Linux considera-se ateu ou agnóstico – apesar de ficar dizendo frases como “Meu Deus!” ou “Graças a Deus!” em momentos diversos. O exemplo mais gritante ocorre por conta da famosa pirataria: a maioria dos usuários de Windows usa cópias ilegais do sistema, portanto o usuário de Linux vai criar em sua mente um código de ética onde usar softwares ilegais – ou softwares proprietários – seria o mesmo que cometer um pecado mortal. Desta forma, ele buscará usar apenas softwares livres, mesmo que o software livre seja infinitamente inferior ao seu correspondente proprietário. Do outro lado, embora o linuxer tenha todo um cuidado ético em não instalar nenhum programa ilegal em seu sistema, por muitas vezes descobrimos no micro dessa mesma pessoa toneladas de músicas e filmes baixados da Internet. Parece que MP3 e filmes não são proprietários e escapam à definição de pirataria.

Deste modo, para diferenciar-se, os usuários de Linux brigam entre si, rejeitando tudo que soe como uma novidade ou que possa atrair mais usuários para o sistema: o Ubuntu, que é uma das distribuições mais fáceis de usar, é constantemente apedrejada pelo simples motivo de ela ser fácil de usar e, portanto, lembrar o Windows e atrair novos usuários, geralmente oriundos deste sistema Passa-se a, então, ter-se um teste informal de admissão: para ser considerado um verdadeiro usuário de Linux, a pessoa deve usar distros “de verdade”, como Slackware, Gentoo ou Arch, deve abandonar o modo gráfico e usar exclusivamente o Vi para escrever textos; deve abandonar sua fé pessoal e deve deixar de fazer o que seus amigos ou familiares fazem ou frequentar os lugarem que frequentam. No entanto, isso pode ter uma explicação: segundo a teoria psicanalítica de Sigmund Freud, nossa mente desenvolve sistemas de defesa do ego para mantê-la sã e um desses mecanismos de defesa chama-se formação reativa, que é o fato de a pessoa negar ou colocar defeitos em algo que ela deseja profundamente. Em outras palavras, é muito provável que muito dos “hard users” de Linux que naveguem na Internet em modo texto na verdade apenas queiram a facilidade e a comodidade oferecidas pelo Ubuntu ou pelo Windows, mas são incapazes de admitirem isso para si mesmos.

Assim, concluímos que os linuxers são elitistas essencialmente porque são uma minoria e, devido a isso, em sua busca por auto-afirmação, lutam para diferenciarem-se dos demais.

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4 respostas para Por que (alguns) usuários de Linux são tão elitistas?

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  2. Ricardo disse:

    Bom, legal o artigo. A verdade dói, mas não mata. No entanto, essa verdade pode ser voltada a alguns, mas não vamos generalizar.
    Eu não gosto do windows, e me refiro a “ele” como rwindows. Mas isso pq já tive muitos momentos traumatizantes com esse pseudo-sistema operacional, como perder coleções de mp3, ou outros dados, ou ainda perder documentos/trabalhos pelo sistema travar, ou pegar vírus. Mas isso era no passado (98, ME e primórdios do XP), até descobrir o GNU/Linux. Mas não foi só o sistema que me chamou a atenção, mas a filosofia.
    Por mais que soe romântico e ingênuo, a filosofia fez o sistema o que ele é hj, embora travestido de modelo de negócios, encaro isso como um ajuste, um equilíbrio. O sistema precisa da comunidade, a comunidade precisa da filosofia, que é o ideal a ser sempre buscado e sempre alcançado. E ideias não morrem, como diria o V, 😉

  3. André Machado disse:

    Realmente, Ricardo, esse artigo é destinado justamente àqueles usuários que são elitistas e, por isso, tornam-se cegos (teve um que até me mandou um e-mail…). Existem usuários e usuários e, como você mesmo disse, a verdade dói.

  4. Léo disse:

    Sinceramente, você misturou tudo numa panela e tentou relaciona-las…
    Realmente existe esses usuários linux, mas como existe em todo sistema operacional, existem pessoas assim que usam windows ou mac. Esse comportamento se diz a pessoa e não ao sistema que utiliza.
    Agora misturar flash foi forte ein… Se tu estudar um pouquinho sobre padroes de web vai descobrir milhares de motivos para nao se criar sites em flash, vou citar alguns: não segue o padrao de web (você precisa de um plugin), seu conteudo não ficará indexado em sites de buscas, o site fica muito mais lento que puro html, css, javascript; com a criação dos frameworks de javascript, muitas funcionalidades do flash sairam de uso….
    Mas sobre usuários linux, eu como fã do pinguim fico triste de que realmente existe uma grande margem de usuários fanáticos, mas isso acontece também com torcedores de futebol, de jogos, etc…
    Abraço.

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